Broncas do Rafa – Legislando para os “companheiros”
Opinião*
O segundo turno da campanha presidencial no Brasil partiu para o campo religioso. Os dois candidatos, José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), em busca dos votos da candidata derrotada no primeiro turno Marina Silva (PV) partiram com unhas e dentes para conquistar os votos dos evangélicos. Nessa hora a hipocrisia reina solta. Ninguém é a favor do aborto, da união civil entre homossexuais ou da utilização de células-tronco para fins terapêuticos.
Como em promessa de político não dá para confiar, a bancada evangélica exigiu que a candidata petista assinasse uma carta aberta se comprometendo a VETAR, falei VETAR, não discutir, não colocar em votação, não realizar plebiscito, mas, simplesmente e bem ditatorialmente, vetar qualquer lei ou projeto de lei que vá de encontro ao que prega essa corrente religiosa. Ou seja, serão quatro, quiçá oito anos de atraso nas pesquisas com células-tronco, na aprovação da união civil entre homossexuais ou na legalização do aborto.
O Brasil está 10 anos atrasado nas pesquisas com células-tronco em relação a outros países, porque não foi votada ainda uma legislação especifica para o assunto. Há 15 anos dorme em berço esplendido no Congresso o Projeto de Lei 1.151, que permite a união civil entre homossexuais. Isso sem falar no direito da mulher de legislar sobre seu próprio corpo. Não sou a favor do aborto como método anticoncepcional, mas em casos específicos como, o de estupro, má formação do feto e quando há risco de vida para a mãe, o que já ocorre.
O que mais me choca é a ditadura imposta por uma vertente religiosa. Sinto vergonha de ser brasileiro e de ver um candidato a presidência se rebaixar aos interesses de um grupo religioso. Esqueceram que o Estado é laico. Porque não se estabelecem plebiscito para se discutir essas questões? Porque, no Brasil, presidentes não são a favor da discussão democrática e sim, do simples veto. Esse episódio me fez lembrar a célebre frase de Voltaire: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. Viva a liberdade de expressão, viva a democracia!
*Por Rafael Veloso
Projeto de Lei 1.151, sobre a união civil entre homossexuais, não fala sobre cerimônia religiosa, mas sim, sobre os direitos constitucionais que até hoje só são permitidos a casais heterossexuais. Direitos como, a partilha de bens no caso de morte de um dos parceiros, o direito a inclusão no plano de saúde como dependente, a dedução no Imposto de Renda, o direito de acompanhar o parceiro quando o mesmo estiver internado, etc. Como diz o GGB (Grupo Gay da Bahia), o que se busca são “direitos iguais, nem mais, nem menos”.
Sou evangélica. Assim como cada um tenta defender o que “acha mais correto”, defendo a liberdade religiosa que será ameaçada (sim, por que é uma questão de tempo) por determinadas leis que ferem a nossa constituição.
De uma forma prática, quero salientar que, caso a lei a favor do casamento gay seja aprovada, nenhum pastor ou padre poderá se negar a realizar uma cerimônia de casamento, correndo o risco de ser preso, acusado de praticar homofobia.
Isso vai de encontro à liberdade religiosa.
A fase de discussão do projeto já acontece há mais de 10 anos. Estamos na etapa do aprovar ou não.
SER discordante não é SER preconceituoso.
É para deixar qualquer um desanimado e envergonhado. Infelizmente, o Brasil e a maioria da população ainda vive na idade da pedra. É assustador como a religião, seja evangélica ou católica, domina a decisão do povo. Sou, como você, a favor da discriminação do aborto por varias razões. Acabar com as clínicas clandestinas existentes no país é uma delas. Afinal de contas, o aborto acontece no nosso país, queiram os fanáticos religiosos, ou não.
Precisamos mesmo é de uma reforma política urgente. Parlamentarismo e não obrigatoriedade de votos, já.