Resenha do filme Sobrou pra você

Resenha do filme Sobrou pra você
Foto: Reprodução

Abbie é uma professora de ioga, vivida por Madonna, que está vendo ir por água a baixo a possibilidade de constituir uma família com o fim do seu namoro com Kevin (Michael Vartan), técnico de um estúdio de gravação. Desesperada Abbie, pede conselhos ao seu melhor amigo, o jardineiro Robert, interpretado pelo ator Rupert Everett.

Abbie e Robert são amigos íntimos com muitas coisas em comum: jovens, têm uma visão não-convencional da vida, impulsivos, inteligentes e nem um dos dois tem sorte no amor. Eles fariam um par perfeito, se não houvesse um detalhe: Robert é gay.  Essa relação ideal de amizade vai até o dia seguinte a uma festa. Além da dor de cabeça e ressaca, eles acabaram transando, após muitos coquetéis e martinis.

Tudo bem, se esses fossem todos os problemas do mundo, mas acontece que ela fica grávida. A partir desse acontecimento, eles se transformam em pais e um novo mundo se abre para ambos e também para Sam (Malcolm Stumpf), seu filho, que decidem criar como se fossem uma família comum. Esse é o enredo do filme Sobrou pra você (The Next Best Thing). EUA, 2000, do veterano diretor John Schlesinger, exibido nesta quinta-feira, dia 19 de junho de 2003, às 22h30 pelo SBT (Sistema Brasileiro de Televisão).

As coisas dão certo, até que Abbie se interessa por um homem – Bem(Benjamin Bratt) -, e decidem se casar e ir morar longe, transformando o filme num drama que culmina com a disputa judicial pela posse da criança. O filme recebeu muitas críticas negativas, principalmente pela atuação de Madonna na película, como a do jornal americano Daily News, por exemplo: “no filme, algumas piadas, quando Madonna não as estraga, até que são engraçadas”.

As críticas resultaram até na premiação com o troféu “Framboesa de Ouro de Pior Atriz”, para a deusa do pop. O filme recebeu outras 4 indicações, nas seguintes categorias: “Pior Filme”, “Pior Diretor”, “Pior Dupla” e “Pior Roteiro”. Mas vale dar uma conferida na história, que a princípio infantil, fica interessante e polêmica, abordando uma situação pra lá de delicada.

RUPERT EVERETT começou sua carreira na Grã-Bretanha, sempre de forma conturbada. Entre os primeiros trabalhos e seu surgimento como ator sério, viveu dois anos simplesmente como gigolô. Entre muitas idas e vindas, mesclou trabalhos importantes no teatro com papéis secundários no cinema. Seus primeiros trabalhos no teatro foram as peças: Importance of Being Earnest (de Oscar Wilde), Some Fine Day. No cinema atuou em Another Country (1984), Dance With a Stranger (1985) e Hearts of Fire (1987).

Mas ele só ganhou notoriedade em Hollywood em 1997, aos 38 anos de idade. No filme O Casamento do Meu Melhor Amigo, Rupert fez o papel do amigo de todas as horas de Julia Roberts, ajudando a protagonista em seus planos mirabolantes de resgatar o homem que ela descobre amar, provocando cenas cômicas. Certamente, Everett será conhecido como o primeiro grande astro de Hollywood a ser gay assumido (openly gay, como eles chamam a toda hora, levando o ator a comentar que esse deve ser o seu nome de batismo).

MADONNA é sinônimo de escândalo, há alguns anos. Agora ela parece está comportada. Desde que lançou seu primeiro disco, não pára de chocar o mundo com suas roupas, seus cabelos – que mudam de cor a cada novo álbum – e seu comportamento sem limites. Não é à toa que essa americana dos arredores de Chicago, que aos vinte anos chegou a Nova Iorque com apenas trinta e cinco dólares no bolso, virou diva e sex simbol da comunidade GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes).

Nascida em 16 de agosto de 1958 como Maria Cicceone, Madonna, era a filha mais velha da família. Após o falecimento de sua mãe, quando tinha ainda seis anos, a cantora teve que tomar conta de seus irmãos na ausência do pai. A vida em Chicago foi-se tornando cada vez menos interessante para Madonna. No ginásio, era vista como rebelde pelas colegas da escola. No segundo grau, foi transferida para um colégio de freiras, onde a disciplina era rígida. É claro que essa solução não deu certo. Tanto que, em 1978, com apenas vinte anos, lá estava ela desembarcando em NY.

Trabalhou como garçonete em Manhattan até que conseguiu entrar para o grupo de dança de Alvin Ailey e Marta Grahan. Nessa mesma época, começou a se interessar por música e formou algumas bandas de rockpop. Daí a compor sua primeira música e perceber que faria sucesso numa carreira solo foi um pulo.

Em 1983 veio o estouro: o primeiro disco da cantora, que levava o seu nome, explode nas pistas com HolidayBordelineLucky Star. Todo esse sucesso teve a ajuda especial de um amigo DJ, que consagrou Dress you up como hit. Em 1984, sem deixar o público parar para respirar, Madonna lança Like a Virgin. E daí para frente, só sucessos e discos de platina, acompanhados por escândalos picantes e fofocas de todos os tipos.

Trilha Sonora

Madonna e Everett repetem na tela a amizade que mantêm na vida real. Foi o ator, aliás quem sugeriu à cantora que regrava-se a clássica música “American Pie”, gravada originalmente no final dos anos 70 pelo cantor country Don McLean e dedicada ao ídolo do rock Buddy Holly, morto em 1959. A música foi primeiro lugar nos EUA em 1972 e é uma das mais discutidas da história, com vários sites na internet e muitos especialistas dispostos a dissecá-la.

A canção Killing Me Soffly, cantada por Roberta Flack e mais atualmente pelo grupo Fugees, é uma homenagem a McLean e à música. O lançamento de “American Pie” na voz de Madonna foi na véspera de completar 30 anos da queda do avião nos campos de Iowa que matou Buddy Holly e Ritchie Valens (La Bamba), que no refrão McLean chama de “o dia em que a música morreu”.

American Pie (Torta Americana) era o nome do avião em que os artistas viajavam. Na versão de Madonna a música ficou com 4m30s, enquanto a original tinha 8 minutos. A canção começa com os versos originais de abertura: “Há muito, muito tempo / Eu ainda consigo me lembrar / Como aquela música me fazia sorrir / E sabia que se eu tivesse minha chance / Eu poderia fazer aquelas pessoas dançarem / E, talvez, eles fossem felizes por um momento”.

Ela interrompe a estrofe no meio e corta para a segunda metade da estrofe que fala do “livro do amor” (Bíblia), com uma adaptação: “Você acredita no rock’n roll? / Pode a música salvar a sua alma mortal?”. O famoso refrão é repetido apenas três vezes na versão dela, que conclui após a estrofe número cinco que começa com uma referência a Janis Joplin (“a garota que cantava blues”) e termina com versos que os cristãos da época não gostaram muito: “os três homens que eu mais admiro / O Pai, o filho e o Espírito Santo / pegaram o último trem para o litoral / no dia em que a música morreu / e estavam cantando…” entra o refrão.

Rafael Veloso

Jornalista formado pelo Centro Universitário Estácio da Bahia - Estácio FIB em 2009. É editor do site Rafael Veloso.com.br desde 2003. Atuou em produção de programas de rádio e TV, tem experiência com web jornalismo e há 12 anos trabalha com Assessoria de Comunicação Interna e Externa. E-mail: contato@rafaelveloso.com.br.