Ônibus 174

(RESENHA)

Por Rafael Veloso

Um exemplo do fascínio que a mídia incita nas pessoas e do alto preço que elas estão dispostas a pagar pela fama, foi o drama vivido pelas reféns do ônibus que fazia a linha 174, seqüestrado no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro, em 12 de junho de 2000. O relato deste episódio dramático de violência urbana, acompanhado por transmissão ao vivo durante quatro horas e que comoveu toda a população brasileira é abordado no documentário “Ônibus 174” (Bus 174), lançado em 2002 e dirigido por José Padilha.
O episódio culminou com a morte de uma das reféns, a professora Geisa Gonçalves, morta com três tiros disparados por Sandro do Nascimento e um pela própria polícia carioca, numa tentativa frustrada do Esquadrão de Operações Especiais em evitar a fuga do seqüestrador, que acabou sendo morto por asfixia na viatura policial depois de rendido.
No filme, o relato do seqüestro é contado em paralelo à história de vida do seqüestrador – um sobrevivente da chacina da Candelária, em 1993 -, na tentativa de contextualizar todas aquelas imagens dramáticas. Para isso, o diretor fez uma cuidadosa investigação utilizando imagens pinçadas das transmissão ao vivo feito pelas principais emissoras de televisão, além de exibir documentos oficiais, entrevistas com as reféns, familiares e amigos de Sandro, e do viúvo da vítima, bem como de policiais que participaram da operação.
É através deste trabalho de Padilha que o espectador fica sabendo que o seqüestrador, também é uma vítima da violência desde cedo. Sandro aos nove anos de idade viu sua mãe, Clarice do Nascimento, ser assassinada dentro de seu pequeno estabelecimento comercial em São Gonçalo.
No documentário, o diretor mostra o despreparo da polícia para agir em situações como essa, apontando como a interferência de autoridades que não estavam presentes no local e as deficiências técnicas dos policiais que participavam da negociação com o seqüestrador prejudicaram o desfecho do fato.
Durante todo o tempo que durou a ação, o seqüestrador fazia terror psicológico com as vítimas e incentivava o desespero, como forma de sensibilizar as autoridades e a população. Orquestrando um jogo perigoso, em que fomos todos envolvidos, em busca de seu sonho de um dia ser conhecido em todo o país, como relata a tia de Sandro. No transcorrer do documentário nos perguntamos, até que ponto as transmissões ao vivo de dramas como esse do ônibus 174 não contribui para que meninos de rua continuem tentando deixar de ser invisíveis perante a sociedade?
Sempre achamos que problemas como a violência urbana é de inteira responsabilidade dos governantes e de suas políticas equivocadas para dirimir a desigualdade social existente no país, mas esquecemos de nossa responsabilidade também. O Ônibus 174 vem nos mostrar que os bandidos são frutos de uma sociedade que os exclui, seja enquanto meninos de rua nos faróis de trânsito ou encarcerados em celas minúsculas e superlotadas, as chamadas “faculdades do crime”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

§ Ficha Técnica:
Título Original: Ônibus 174
Gênero: Documentário
Tempo de Duração: 133 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2002
Direção: José Padilha
§ Site “Cidade Internet”
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Acesso: 27/set/2006.
§ Site “Cinemando”
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Acesso: 27/set/2006.
§ BRASIL, Antônio. IN.: “Ônibus 174 não passa na Cidade de Deus”. Disponível no site Observatório da Imprensa.
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Acesso: 27/set/2006.
§ REUTERS, Agência. In.: “Documentário ‘Ônibus 174’ choca Rio BR ao relembrar tragédia”. Disponível no site Folha On Line.
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Acesso: 27/set/2006.

Rafael Veloso

Jornalista formado pelo Centro Universitário Estácio da Bahia - Estácio FIB em 2009. É editor do site Rafael Veloso.com.br desde 2003. Atuou em produção de programas de rádio e TV, tem experiência com web jornalismo e há 12 anos trabalha com Assessoria de Comunicação Interna e Externa. E-mail: contato@rafaelveloso.com.br.